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Banca de Jornal ou Loja de Conveniência?

Gabriel Rodrigues, Leonardo Brito e Levi Kassardjian

As bancas desempenham um papel significativo: elas estão conectadas a cidade, ao bairro, trazendo uma proximidade com as pessoas e fazem parte da memória afetiva de muitos.

Sua importância era tamanha que as cidades deram o que é considerado o espaço mais privilegiado: as calçadas. Por lei, elas podem ocupar até 50% do espaço do passeio. Elas funcionam como concessões públicas, utilizando um espaço público de domínio público.

As bancas de jornal, símbolos tradicionais da vida urbana de São Paulo, estão passando por uma transformação significativa no seu modelo de negócios. Com a crescente digitalização da mídia e a redução da tiragem de jornais e revistas impressos, os jornaleiros foram forçados a diversificar os produtos que oferecem para garantir a sobrevivência do negócio.

Bancas de jornais se reinventam para sobreviver no mercado

O que antes era um espaço dedicado à leitura matinal de notícias, agora se transforma em um lugar onde a conveniência e a praticidade ditam as regras.

Doces, bebidas, carregadores de celulares e chaveiros são os principais produtos das bancas de jornais

Para Jucélio Santos, 35, dono de uma banca de jornal, “antigamente você sobrevivia só dos jornais e revistas, dava para pagar as contas e até mesmo a escola das crianças. Hoje não dá mais, é a conveniência que sustenta a banca”.

Um levantamento do site Poder360 que utilizou dados do Instituto Verificador de Comunicação (IVC) apontou uma queda de 16,1%, em média dos 15 principais jornais brasileiros, na circulação de jornais em 2022. Pegando como base quando os dados foram publicados, isso em 2022, a soma total dos impressos chegava apenas 47% do total dos quatro últimos anos.

“Parece até brincadeira dizer que em uma banca de jornal hoje, o que mais se vende são doces e cigarros do que os jornais e as revistas. Porque há uns três anos vendia muito mais jornal, cerca de 40% a mais”, diz o gerente da Banca Mackenzie, Leonardo Gomes, de 22 anos. Ele ainda fala que em pouco tempo corre-se o risco das bancas acabarem, “a prefeitura está exigindo muito dos espaços, fora as denúncias dos moradores reclamando que a gente ocupa muito as calçadas”.

É cada vez mais comum encontrar bancas no centro da cidade que se assemelham a pequenas lojas de conveniência. Elas agora oferecem uma variedade de produtos que inclui alimentos, doces, bebidas geladas, cigarros, brinquedos, oferecem ainda serviços como xerox, chaveiros e outros. Tem até mesmo a venda de jornais para pets, não para ler, e sim para fazer xixi. Larissa Santos, 22, vê essa mudança como normal. “Minha mãe comprava muito gibi na banca quando eu era criança, hoje vejo as informações tudo pela internet. Agora só compro jornal para meus cachorros usarem como tapete”.

Essa diversificação de produtos é uma resposta direta à diminuição nas vendas de jornais e revistas, que antes eram o carro-chefe desses estabelecimentos. Porém elas não podem ainda deixar de ter impressos, pois uma lei de 1985 e complementada posteriormente por dois decretos, exige que 75% dos produtos sejam editorias.

Jornal vira tapete higiênico para pets

“O número de impressos caiu muito nestes últimos anos”, afirmou Francisco Carvalho, de 57 anos, comerciante e dono da Banca Caio Prado, na Consolação. E completa: “eu acredito que ainda vai existir banca por mais cinco anos, porque está tudo na internet e quem compra ainda são as pessoas de idade, que gostam de pegar ainda no papel”.

Essa mudança de perfil das bancas de jornal no centro de São Paulo reflete uma adaptação necessária às mudanças nos hábitos de consumo. Enquanto o jornalismo impresso enfrenta desafios cada vez maiores, as bancas encontram no comércio de conveniência uma nova forma de permanecerem relevantes e lucrativas.


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