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Influência digital como fuga da marginalidade: A presença e resistência de mulheres trans nas redes sociais

Diante da exclusão no mercado de trabalho, redes sociais se tornam uma alternativa de sobrevivência para mulheres trans

Em um contexto com cerca de 1,5 milhão de trabalhadores, apenas 4,5% são pessoas LGBTQIAPN+. Os números pioram quando o foco se torna pessoas trans. Segundo dados levantados pela plataforma To.gather, que analisa e monitora estatísticas de diversidade e inclusão nas organizações, trabalhadores e trabalhadoras transexuais não ocupam 0,5% do quadro de funcionários das empresas. A baixa empregabilidade faz com que esses indivíduos tenham que recorrer a outros meios e formas de trabalho, que envolvem desde prostituição à influência digital.

O debate sobre a motivação para números tão baixos é extenso e envolve principalmente a violência e invisibilidade. Uma pesquisa realizada pelo projeto TransVida, com apoio do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, e condução do antropólogo e ativista Fabrício Longo, exibiu em seu relatório final que a transfobia reduz as possibilidades de acesso e de sobrevivência das pessoas trans. O processo de exclusão estrutural impede que grande parte desse grupo de pessoas não desenvolva sua força de trabalho e talentos profissionais. 

Da prostituição ao mercado de influência 

O Dossiê dos Assassinatos e da Violência contra Travestis e Transexuais Brasileiras, criado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) revelou que 90% da população transfeminina brasileira recorre à prostituição como fonte de renda. O dado revela não apenas uma escolha profissional, mas retrata a exclusão social que acompanha essa população ao longo de toda a vida. 

A prostituição, como segunda via para sobrevivência no mercado de trabalho, surge como uma resposta à falta de acesso a oportunidades básicas, como escola, saúde, moradia e emprego com carteira assinada. Desde cedo, a vida de milhares de travestis e mulheres trans são atravessadas pela exclusão. Seja a expulsão de casa, evasão da escola por sofrerem bullying ou violência e até mesmo a impossibilidade de acessar programas de capacitação profissional. O resultado é uma inserção compulsória no mercado do sexo, onde o corpo passa a ser, muitas vezes, o único capital disponível. 

Essa foi a realidade de Fernanda Ganzarolli por muito tempo. A vida de influenciadora chegou do dia para a noite com uma participação despretensiosa no vídeo de um estranho na rua. Um homem, João Igor, que tocava violão e cantava louvores na rua enquanto fazia uma live no TikTok, foi parado por Fernanda, que surgiu na calçada, tentando pedir uma carona, olhou para a câmera e entrou na cantoria. O momento viralizou na web e fez Ganzarolli sair de 20 seguidores, no Instagram, para 150 mil. 

Até então, ela enfrentava a realidade da prostituição, por anos precisou vender seu próprio corpo para ter o que comer e onde dormir. A ascensão no mercado de influência e a saída da vida como garota de programa, proporcionou a Fernanda publicidades ao lado de grandes marcas como Netflix, Santander e mais. 

Transfobia não digital 

Apesar da ascensão no mercado da influência, o estigma da sexualização e promiscuidade continua. A influenciadora Luiza Cavalli, 21, tem como carro-chefe conteúdo de humor para as redes sociais e relata ainda assim receber muitas propostas para trabalhar com produção de conteúdo adulto. Ela produz também conteúdo de estilo de vida para redes sociais desde 2018, contando atualmente com 2,2 milhões de seguidores no TikTok, sua rede social mais ativa. 

“Conheço mulheres trans que conseguiram ser bem-sucedidas em diferentes formas de trabalho, mas a sociedade fixou que a gente só tem dinheiro se for prostituta, ou se a gente criar um conteúdo adulto, que ficou essa marca na imagem”, destaca. 

Apesar de reconhecer a importância da internet para sua transição e autonomia, Luiza sente grandes dificuldades para fechar publicidades. “Eu acho que as marcas não querem vincular muito da imagem com mulheres trans”, afirma Luiza, ao destacar que mesmo com números menores, as propostas eram mais frequentes quando ainda era reconhecida como um homem gay. 

Ela relembra de uma violência sofrida ao quase fechar parceria com um aplicativo direcionado a mulheres até descobrirem que não contratavam uma mulher cisgênero. “Disseram que o aplicativo não era feito pra pessoas do nosso gênero, como se fosse um gênero distinto. Então, me cortaram porque ‘não queriam enganar o público que já usava o aplicativo’. Foi tão chato”, conclui. 

Devido à falta de ofertas até para permutas, a influenciadora assumiu aceitar fazer publicidade para casas de apostas online. Essa é uma alternativa que ela define como comum para meninas trans na internet, tal qual a produção pornográfica. Se as publicidades não chegam, quem paga é o famoso “tigrinho”.

No mercado de trabalho tradicional, a defesa pela empregabilidade trans continua 

Reinaldo Bulgarelli, secretário executivo do Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+, organização que promove a inclusão de pessoas da comunidade no ambiente corporativo, afirma que empresas costumam relatar dois principais entraves na admissão de pessoas transgênero. O primeiro seria uma suposta escassez de profissionais qualificados dentro dessa parcela da população, justificativa que ele classifica como falsa e discriminatória. O segundo, de natureza operacional, envolve a ausência de preparo interno das instituições para acolher essas identidades em questões como adequação de banheiros, personalização de crachás com o nome social e atualizações em sistemas de benefícios, como planos de saúde.  

“Esses entraves estão ligados, na verdade, à transfobia. A gente precisa parar de tratar como problema técnico algo que é, muitas vezes, resistência cultural. Não é que não existam pessoas trans capacitadas, é que o ambiente não foi preparado para recebê-las”, pontua o educador. 

Desde 2019, a Casa 1, um centro de acolhimento e cultura para pessoas trans, realiza feiras de empregabilidade voltadas a essa população em seu galpão localizado no tradicional bairro do Bixiga, no centro de São Paulo. No último dia 3 de abril, foi realizada a nona edição do evento, que reuniu mais de mil vagas oferecidas por diversas empresas.  

Beatriz Gimenez, voluntária da frente de empregabilidade da Casa 1, explica como a feira pode ser eficaz para ajudar pessoas trans na busca por emprego. “A gente tem alguns pilares aqui na feira: acesso, equidade e acolhimento. Muitas vezes, essas pessoas não têm sequer um celular para buscar uma vaga, então garantimos estrutura básica, alimentação, transporte, impressão de currículos. Tudo isso para que elas tenham, de fato, acesso e segurança para participar”, explica. 

Ela destaca também o preparo que as empresas passam para que o ambiente seja receptivo e respeitoso: “quando a gente faz essa feira, a gente treina todas as empresas, faz uma sensibilização sobre a comunidade LGBT, especificamente sobre pessoas trans, para que elas não sofram nenhum tipo de discriminação. A ideia é que esse seja um espaço seguro”. 

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