Home / Educação / A formação da identidade negra pelas marcas do racismo

A formação da identidade negra pelas marcas do racismo

Agressões vivenciadas na escola impactam e privam a construção da autoestima de jovens negros

No fim do mês de abril, uma aluna bolsista de 15 anos foi internada após ser encontrada desacordada em um banheiro de um colégio da rede privada, na região nobre da cidade de São Paulo. A aluna vinha sofrendo ataques racistas e homofóbicos desde o ano passado. A coordenação do colégio já havia sido comunicada da violência sofrida ainda em 2024, segundo a mãe da adolescente.

Ato de desagravo realizado na Universidade Mackenzie, em São Paulo.
Ato de Desagravo na Universidade Mackenzie

Casos de racismo como o da estudante desse colégio não são isolados. Segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto de Referência Negra Peregum (Ipec) e pelo Projeto SETA, 64% dos jovens brasileiros entre 16 e 24 anos revelam que a escola é o local onde mais sofrem racismo. A violência verbal apareceu como a forma mais comum de manifestação do racismo, com 66% dos entrevistados relatando experiências de xingamentos e ofensas.

Em resposta ao episódio de racismo sofrido pela estudante do colégio, membros do Coletivo Prounistas, formado por estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie e bolsistas pelo programa PROUNI, junto com alunos integrantes do Coletivo Saravá, movimento negro estudantil da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), organizaram no último dia 15 um ato de desagravo no campus do Mackenzie, em Higienópolis.

Por meio de uma roda de conversa, os universitários tiveram espaço aberto para produzir cartazes e compartilhar relatos sobre suas experiências como estudantes negros na universidade, além de discutirem sobre propostas de mobilização e levantamento de demandas para serem levadas à coordenação. Pautas como a ausência de professores negros e micro agressões morais de outros colegas foram levantadas.

Conscientização dentro das universidades

O coletivo Saravá, formado por alunos da PUC São Paulo, é uma das organizações estudantis que luta para terem os direitos dos estudantes

negros e bolsistas assegurados pela instituição, defendendo a proteção e segurança dos alunos contra o racismo, além de protestar por melhorias nas medidas de permanência estudantil para alunos bolsistas da universidade, como o “bandejão” — refeição oferecida pelo restaurante universitário.

As alunas Laura Costa, 23, e Ica Nishimoto, 21, encontraram acolhimento no coletivo quando ingressaram na universidade e hoje participam ativamente das ações do movimento. Ica, estudante de Ciências Sociais, conta: “eu acho que o coletivo preto aqui se une muito nessa escassez, nessa falta que a gente sente de representatividade, de acolhimento mínimo”.

“O Saravá vem com o intuito de aquilombar, de encontrar conforto entre os seus”, relata Laura, estudante de Psicologia. “Quando me juntei ao coletivo foi esse o momento em que eu consegui me sentir minimamente apoiada, sabe? Foi onde eu encontrei essa rede de apoio.”, completa.

 O impacto na infância e adolescência

Ica e Laura, que já foram vítimas de racismo ainda na escola, compartilham como essas experiências afetaram, sobretudo, a formação da autoestima delas ainda na infância. Laura, quando estudava como bolsista em um colégio particular, conta que já escutava comentários racistas sobre si. “Na época minha mãe fazia tranças no meu cabelo e colocava lã junto. Então eu usava tranças com várias cores diferentes: rosa, amarelo, azul, verde. Eu ia com o cabelo todo colorido para a escola e as pessoas começaram a comentar sobre isso. E eu usava maquiagem na época também, porque a forma como eu gostava de me expressar era passando maquiagem. Eu ia com o olho colorido às 7 horas da manhã para a escola, mas começaram a repudiar a maneira como me portava ali dentro, porque era uma escola católica, e eu estava muito fora do padrão em comparação aos outros alunos que estavam ali”, conta. “Eu era muito colorida e chamava muita atenção, e precisava ir de uma maneira cada vez mais neutra para esse espaço.”

Laura conta que esses episódios desenvolveram um bloqueio nela. “Eu não entendia aquilo como racismo enquanto era estudante, então

Laura e Ica, estudantes universitárias e integrantes do Coletivo Saravá.
Ica e Laura relatam experiências da infância e da juventude.

machucava, mas eu não entendia como atitudes racistas”, diz. “Eu só voltei a fazer trança muitos anos depois. Então foi algo que, de fato, por um período de mais de 5 anos, eu fiquei evitando fazer porque chamava muita atenção”.

A professora Erika Brasil Figueiredo, membro do Coletivo Leste Negra e mestre no programa de pós-graduação de Ensino e Relações Étnico raciais da Universidade Federal do Sul da Bahia, comenta sobre os impactos do autoestima: “os danos são devastadores. Crianças negras já estão muitos passos atrás das crianças brancas. Muitas pesquisas mostram isso na questão da autoestima. Isso influencia demais no aprendizado, desenvolvimento, capacidade de acreditar em si”.

O relatório do Banco Mundial “Inclusão Afrodescendente na Educação: Uma Agenda Antirracista para a América Latina”, publicado em 2023, revela que, das aproximadamente 34 milhões de crianças e jovens afrodescendentes em idade escolar na América Latina, 7 milhões abandonarão os estudos antes de completar o ensino fundamental. Alguns dos fatores contribuintes apontados pelo estudo são: discriminação sistêmica dentro das instituições educacionais; a percepção de que estudantes afrodescendentes têm menor capacidade de aprendizado, levando à desmotivação e ao abandono escolar; e a ausência de figuras afrodescendentes nos livros escolares, impedindo que crianças e adolescentes se identifiquem com os conteúdos ensinados em sala de aula.

Ica acredita que isso também influencia na relação com o ingresso na universidade: “acho que ainda estamos muito atrasados em como a gente consegue repensar o ambiente acadêmico para que seja minimamente acessível, onde a pessoa entra na faculdade ou na escola e consegue ficar até o final, sem evadir a faculdade ou a formação básica”. 

Sobre a formação para professores dentro da questão étnico-racial, a professora Erika afirma que ainda é rasa. “Mesmo com políticas públicas, existe um não-aprofundamento. Somos uma sociedade eurocentrada, com uma lógica de pensamento muito linear. A educação antirracista traz uma lógica circular, como é comum nas culturas de matriz africana e dos povos originários. E quando você tenta colocar um círculo dentro de um quadrado, sempre vão existir arestas. Isso não ajuda na engrenagem de uma educação que se propõe a ser inspiradora, como a freireana, que se centra no estudante, nas necessidades dele.”

Especificamente sobre o caso da estudante encontrada desmaiada no banheiro do colégio, Erika entende que a atuação do professor deve aparecer antes de uma situação emergencial. “Levar essa vítima a todas as possíveis instituições que possam acolhê-la. É uma questão de emergência e também de saúde. Perpassa por uma questão jurídica também, porque racismo é crime. Tem que haver apoio psicológico, apoio jurídico, levar a questão às entidades policiais. E fazer um trabalho de base na escola como um todo”. A professora complementa: “a formação de professores, de estudantes, de funcionários, desde quem atende na matrícula até quem trabalha na praça de alimentação. Todas as pessoas que vão ter contato com essa violência precisam estar dentro dessa discussão. É um passo gigantesco”.

Cartazes produzidos durante Ato de Desagravo na Universidade Mackenzie.

Laura ainda lembra de como o racismo sofrido durante a adolescência impactou também no seu desenvolvimento pessoal, no período de descoberta da sua sexualidade. “Quando chega a parte da adolescência e o momento que você começa a descobrir a sua própria sexualidade, ser uma pessoa negra é muito difícil, porque estando nesse espaço branco eu nunca era a pessoa escolhida para ficar, eu nunca era a pessoa qualificada como uma das mais bonitas da sala, nem as mais bonitas da escola, então eu acho que ao longo do tempo eu fui tendo uma autoestima muito baixa”.

“Eu questionava muito sobre a minha aparência, sobre ser uma pessoa atraente ou não. Até questionando a minha própria sexualidade, porque eu não conseguia nem vivenciá-la. Então, eu acabei demorando muito tempo para me descobrir quanto uma mulher lésbica por conta disso. Afetou muito a minha autoestima por muitos anos.”

Ica conta que sempre cuidou muito da aparência, também como forma de proteção da sua autoestima. “Acho que já cheguei na escola sabendo que eu era muito única no ambiente onde eu estava. Sempre gostei muito de moda, então fui muito colocada num lugar de estar sempre muito bem arrumada, por ser preta principalmente”, conta. “Passava horas antes de sair de casa tendo certeza do porquê eu estou saindo de casa, se o meu look faz sentido, se quando eu estou indo na banca tem chance da polícia me parar e questionar se estou vendendo maconha, porque já aconteceu. E aí isso criou uma consciência da performance tão grande, uma consciência de o que é estar na sociedade sendo uma pessoa preta”.

A estudante ainda completa relatando o peso que estudantes negros sentem dentro do ambiente acadêmico. “Tem um sentimento de compensação muito grande de pessoas pretas dentro desses ambientes educacionais, onde você precisa performar, saber mais do que você já sabe”, relata. “Você já é bolsista, você já é preto, você já é periférico, no meu caso, você já é trans, você já é, entendeu? Se você ainda erra alguma coisa na frente de um monte de gente branca, o peso é outro. Então acho que a gente tem um lugar muito difícil de sustentar”.

 

O racismo calando alunos dentro da sala de aula

Quando questionadas se passaram por alguma mudança na forma de se verem ou se expressarem, por conta do racismo, respondem o óbvio.

Manifestação na PUC-SP, organizada pelo Coletivo Saravá.

“Constantemente”, afirmou Laura. “Recentemente, inclusive, eu fiquei me questionando sobre uma discussão que aconteceu na sala de aula, onde levamos a crítica de um texto para uma professora, que pediu para que fizéssemos uma leitura crítica, só que quando a gente criticou ela não gostou. E eu, obviamente, me expressei. Expressei a minha dor. Expressei o quanto eu estava sendo atravessada por aquele texto e pelo fato de aquele texto não estar considerando corpos negros e vivências negras. E quando eu coloquei isso em pauta, obviamente eu estava movida. Então eu falei com o meu coração, sabe?”, relatou a estudante.

“Eu falo gesticulando, é o meu jeito de me expressar. E aí, em um dado momento, a professora falou ‘calma, não precisa se exaltar’, mas eu não estava nervosa. E eu fiquei realmente questionando se eu tinha sido agressiva ou se eu ataquei ela em algum momento, se eu tinha sido desrespeitosa. Eu acho que constantemente eu passo por situações que questiono se o meu jeito de ser está sendo adequado ou não para aquela situação, principalmente pensando no espaço dentro da sala de aula”, relata.

“A academia é geograficamente branca e elitista. Então, você ser uma pessoa preta, ser uma pessoa indígena, ser uma pessoa trans dentro desse espaço já é desafiar essa estrutura. Estar aqui já é ir contra. É um trabalho constante você entender que esse é o seu jeito de ser e estar no mundo. E que não tem nada errado com isso. E que eu não preciso ficar atendendo essas expectativas brancas que eu deveria ter de civilização, de docilização do corpo negro.”

Sobre o comportamento adotado por pessoas negras por consequência do racismo estrutural, um levantamento do Instituto Locomotiva de novembro de 2024 constatou que, das 1.185 pessoas negras entrevistadas com mais de 18 anos, 39% evitam correr para pegar transporte coletivo com medo de serem abordadas, 36% deixaram de pedir informações à polícia nas ruas por receio de serem mal interpretadas e 46% evitam entrar em lojas de marca para não enfrentarem olhares preconceituosos.

“Quando você é uma pessoa preta, você se dociliza de inúmeras formas, então você está constantemente performando. Isso também acontece com pessoas que não são pretas, mas sendo uma pessoa preta tem uma pressão muito maior da própria sociedade, pois você é lido o tempo inteiro. A forma que você fala, a forma que as pessoas te veem, a forma como tudo acontece parte do outro geralmente”, argumenta Ica.

“É necessário um resgate de pensar ‘não, quem vai dizer a minha narrativa sou eu. Esse é o meu corpo, é a minha transição de gênero, essa é a minha vivência enquanto um corpo trans, essa é a minha vivência enquanto um corpo preto, e não é vocês que vão decidir o que eu sou’. Ser uma travesti também te coloca em condições ruins na sociedade, então quais são as possibilidades de emprego, quais são as coisas possíveis para esses corpos que geralmente são pretos também. E a partir disso eu acho que é um resgate, eu que estou operando.”, conta.

“Até existem políticas públicas, como aqui em São Paulo, voltadas para a formação de professores, mas a aplicação delas exige muito esforço, porque enfrentam o racismo estrutural, que é implícito e velado. A gente vê discussão, vê literatura, mas não chega à população como um todo”, afirma a professora Erika Figueiredo. “Temos as leis 10.639 e 11.645, que obrigam o ensino das culturas afro-brasileira e indígena, modificando a LDB, mas essa obrigatoriedade vai até o ensino médio. Na formação superior, como na pedagogia, não é obrigatório abordar isso”, comenta, referindo-se à Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional.

Precisamos de movimento dentro das universidades para mudar. Pensar matemática, geografia, história de forma étnico-racial, centrada em América Latina, África, povos originários. Mas isso ainda não é pensado, a gente continua reproduzindo uma educação linear. A formação existe, mas é superficial e esse é o grande nó que enfrentamos hoje”.

Foto de cartaz pendurado na PUC-SP.

Desde terça-feira, 20, os estudantes do coletivo, juntamente com outros centros acadêmicos da PUC-SP, realizam uma paralisação para denunciar casos de discriminação racial na instituição, reivindicar a ampliação de bolsas estudantis, determinar a criação de um canal de denúncia em casos de racismo, cotas para pessoas trans, entre outras medidas.

A educação antirracista: observar para atuar

Erika Figueiredo, com base também nas suas experiências em sala de aula, define sobre a educação antirracista: “essas duas coisas são centrais para uma educação antirracista de qualidade: observação e escuta. A escuta daquela comunidade. Quais as necessidades dos estudantes que você está atendendo? Esse acolhimento tem que vir dentro do plano político-pedagógico da escola. Tem que atender às barreiras de linguagem, cultura e alimentação. Tem que transpor essas barreiras. E só tem uma forma: o acolhimento, estar junto desse aluno. A educação é isso. Levar aquilo que o estudante está necessitando. Dentro de uma educação antirracista, tem que trazer isso também: o acolhimento, a escuta e o olhar digno”, complementa a professora Erika.

A professora e mestre tem um olhar apurado sobre o ambiente escolar. “O racismo estrutural perpassa dentro da escola. A escola não é uma redoma e cabe aos educadores fazer essa mediação de conflitos”.

A partir disso, o que pode ser feito?

“Trazer a importância dos povos indígenas e africanos no cotidiano escolar. Já vi transformações imensas. Uma criança descobriu que era indígena ao ver a avó reconhecendo o próprio povo numa apresentação. Um menino que tinha vergonha de si mesmo se libertou ao se reconhecer em outra criança representada com orgulho. Representatividade transforma”, Erika Figueiredo pontua. “A luta antirracista é de todos nós. Não é de um nicho. É dever dos educadores ter uma educação antirracista em casa, na escola, no trabalho. Todos temos esse dever.”

Caso queira ouvir outros relatos compartilhados pelas alunas, além de outros fatores levantados pelos especialistas, confira o Podcast “(Título da matéria)”, disponível no perfil do Conexão Centro no Spotify.

 

Autor

+ posts
Gisele Oliveira
Marcado: