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O Vintage Movimenta o Centro

Brechó Miss Sunshine, dentro do coletivo de brechós A Casa Rosa – Foto: Letícia Gomes.

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Boa leitura!

De camisetas esportivas clássicas a tapetes trançados elegantes, os brechós do centro de São Paulo parecem guardar uma relíquia para cada personalidade. Quem se perde em suas prateleiras, cabides e araras encontra tecidos que sobreviveram a décadas, peças que resistiram ao tempo e ajudaram a fincar raízes na cidade. O comércio de segunda mão, nos últimos anos, ganhou um corpo econômico, sustentável e cheio de histórias para contar. Afinal, o centro da capital também já conheceu dias de luta e dias de glória. Quando empresas e moradores mais abastados deixaram a região, nos anos 80, sobraram espaços vazios, imóveis sem destino e ruas fantasmagóricas.

Hoje, o Largo do Arouche evidencia, de forma marcante, essa mistura: bares, cultura e vitrines que são capazes de nos transportar para outro tempo. O centro, que já foi sinônimo de abandono, se redescobriu como palco da diversidade e da reinvenção. E os números confirmam o que os olhos já vêem: há cerca de 7 mil brechós espalhados pelo Estado, sendo 1,8 mil só na capital — mais da metade do que havia antes da pandemia.

A proprietária do brechó JaTeVi, Claudia Mercedes – Foto: Letícia Gomes.

Em 2022, Claudia Mercedes tomou uma decisão. Trabalhava como vendedora de brechó na região de Perdizes e Pompéia, mas, com a pandemia e a mãe doente, precisou dar uma pausa no trabalho. Quando retornou, trouxe consigo a experiência de mais de 20 anos no universo das roupas de segunda mão e decidiu mudar a loja para o espaço atual: um coletivo que reúne outros comerciantes e transforma cada visita em um pequeno garimpo de histórias. Para Claudia, trabalhar com brechó vai além de vender peças. É restaurar roupas, preservar a essência do “brechó raiz” e oferecer descontos que encantam clientes fiéis. Moda sustentável, para ela, é prolongar a vida de cada item e compreender os novos clientes da região central, que chegam de diferentes bairros em busca de achados únicos.

Sobre a nova localização, comenta: “Por ser uma região central, com fácil acesso a ônibus, as pessoas vêm de longe. Se tornou um polo com vários brechós e espaços coletivos, o que atrai gente de diferentes lugares”. Adaptar-se ao trabalho coletivo trouxe desafios, mas Claudia garante que continuará mantendo o que considera essencial: tradição, cuidado e a magia de cada peça encontrada.

A multiartista e ex-participante de reality show Ella Santa Fe – Foto: Ella Santa Fe.

Ella Santa Fé, multiartista e ex -participante do reality Corrida das Blogueiras, aposta em compras de peças vintages para expressar o seu estilo. Você provavelmente vai reparar na sua altura, seu cabelo raspado que sempre está com uma cor diferente, suas maquiagens extravagantes, e suas roupas comuns que, combinadas em um estilo diferenciado, se tornam autênticas. A mulher transformou o punk, caracterizado por cores escuras e góticas, em doce e agradável como ela, criando o que ela chamou de “Glitter Paranoia”, em homenagem a sua banda. E tudo graças às roupas de brechós.

“Moda é comunicação não verbal, porém ela ‘grita’ bastante sobre a gente”. Confiante, a artista não hesitou em dar forma às palavras: o conceito da Glitter Paranoia era unir o caos à beleza. Falava como quem descreve um universo próprio, onde os elementos pesados se encontram em uma estética gritante, alternativa, roqueira, e de repente se rendem ao brilho das luzes, às maquiagens intensas e aos acessórios cintilantes. As roupas, contou, surgem carregadas, feitas de camadas sobrepostas, quase como se carregassem histórias. Mas nesse excesso há também respiro: os detalhes glamorosos que equilibram a cena e lhe conferem leveza. No fim, ela nomeia sua criação com a precisão de quem encontra a palavra certa — um “caos elegante”, síntese de sua identidade estética.

Ella fala de São Paulo como quem fala de um espelho: a cidade devolve em olhares aquilo que ela veste e a forma como escolhe existir. Diz que não chega a ser uma dificuldade, mas um desconforto constante, os olhos que a medem, as fotos tiradas às escondidas, o julgamento silencioso. Sente isso sobretudo quando decide ousar mais: roupas chamativas, cabelos diferentes, cores  que escapam da rotina cinza da metrópole. Nessas horas, os olhares se multiplicam. Ainda assim, reconhece na capital uma espécie de respiro: estranham, mas raramente invadem, raramente incomodam.

Fora da metrópole, em cidades do interior de São Paulo, Bahia, Minas e Santa Catarina, a história ganha outro tom: olhares atravessados, reprovação e até hostilidade. Ser alternativa nesses lugares, conta Ella, é quase sempre um convite à confusão e ao enfrentamento do preconceito. Por isso, veste como privilégio o simples ato de andar pelo centro paulistano de forma extravagante, sabendo que, entre buzinas e multidões, ainda existe um pouco mais de liberdade para ser quem é.

Foi quase por acaso que Reginaldo Luz encontrou seu caminho entre cabides e vitrines. Arquiteto de formação, viu o escritório definhar e, sem nunca ter colocado os pés em um brechó, aceitou o convite de uma amiga para participar de um evento no Largo do Arouche. Levou peças de decoração guardadas em casa e, ao fim de um domingo, percebeu que quase tudo havia sido vendido. O improviso virou rotina e, em pouco tempo, o escritório de arquitetura ficou para trás: nascia, em 2018, o Brechó Colmeia.

O proprietário do brechó Colmeia, Reginaldo Luz – Foto: Letícia Gomes.

O espaço começou como colaborativo, reunindo expositores em três andares. Hoje, a Colmeia ocupa dois andares com móveis, roupas e acessórios, além de abrigar outros três brechós no térreo. “A melhor roupa é a que já está pronta”, resume Reginaldo. Para ele, não se trata apenas de vender peças de segunda mão, mas de escolher com rigor o que merece ganhar nova vida.

Entre as idas e vindas do Arouche, Reginaldo, assim como os brechós do centro, também fincou raízes. Mudou-se para a região e passou a senti-la como quem observa uma colmeia em constante movimento: o zumbido da revitalização, o silêncio da pandemia e, agora, o burburinho da retomada. Orgulha-se de ter ajudado a espalhar esse enxame criativo pelo bairro, transformando-o em um polo de brechós que atrai turistas, curiosos e novos lojistas dispostos a pousar por ali.

“Antes o brechó era de roupa velha, caído, poucas pessoas realmente valorizavam. Agora é uma coisa muito forte”. Para Denize Bacoccina, falar do centro de São Paulo é quase um exercício de afeto. Moradora da região há oito anos, ela se empolga ao telefone e declara, com a convicção de quem conhece de perto as esquinas, os fluxos e as histórias que se entrelaçam por ali, que a presença dos brechós no centro está longe de ser mera coincidência.

A explicação, segundo ela, mistura economia e cultura em doses que se completam. De um lado, o aluguel mais acessível abre portas para novos empreendedores. De outro, o próprio ritmo da região oferece o cenário perfeito. O fluxo de pessoas e a diversidade de comércio, serviços e transportes criam o cenário ideal para os brechós encontrarem seu público vasto, curioso, diverso, sempre à procura do novo e do diferente.

A jornalista Denize Bacoccina – Foto: Denize Bacoccina.

Mas, para Denize, a explicação vai além da estratégia. O centro é também símbolo. Historicamente, as regiões centrais sempre foram o berço da efervescência cultural, onde estilos, comportamentos e tendências se cruzam em colisões criativas. Diante disso, os brechós deixam de ser apenas lojas de roupas usadas. Tornam-se protagonistas de uma revolução estética que se espalha pelas ruas e reverbera na própria identidade da cidade.O que se vende nos brechós do centro não cabe só em etiquetas, nem em guarda-roupas. Claudia enxerga em cada peça recuperada um pedaço de tempo que se recusa a acabar. Ella transforma sobras em manifesto, bordando estilo e identidade em camadas que não seguem cartilhas. Denize, ao observar o movimento da região, enxerga o centro como um laboratório vivo: a moda que se espalha pelas ruas como se espalha uma ideia. Já Reginaldo insiste na palavra que sustenta tudo isso: curadoria. Sem ela, não há história, não há alma, apenas roupas empilhadas.

“Eu acho que a tendência dos brechós veio para ficar, principalmente porque estamos caminhando para um futuro em que o planeta não terá mais condição de suprir o que precisamos”, ressalta Reginaldo, com firmeza. O proprietário do Brechó Colmeia diz que cabe à nova geração entender que devem voltar para aquilo que já existe, ou seja, reutilizar! Considerando que o planeta não dá mais conta de manter o ritmo. “Então o futuro, eu acho, é roupa de brechó sim”, ele garante.

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