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Gastronomia no centro: diversidade e gentifricação

Restaurantes revitalizam região central de São Paulo com variedade culinária

Por Amanda Rocha, Fernanda Lima, Jean Werneck e Tainá Fonseca

Foi com um projeto social iniciado em maio de 2013, envolvendo jovens em situação de vulnerabilidade social, que Gabriel Prieto começou a empreender na gastronomia fazendo a diferença no centro de São Paulo. Ele é vice-presidente do Instituto Sonhe, que atua na região da Cracolândia. “A mãe de um dos meninos, quando ele ganhou a maioridade, pediu socorro para gente para gerar o primeiro emprego dele, porque ele já estava entrando na vida do crime. Então a gente começou a fazer eventos públicos vendendo hambúrguer, gerando 100% dos recursos para os meninos e, quando a gente viu, explodiu”, explica o empreendedor.

O Instituto promoveu eventos em igrejas e realizou uma feira gastronômica em Pinheiros. Também participou do festival Lollapalooza. “Quando a gente viu, tinha 14 meninos empregados. Então, depois de um ano e meio fazendo evento, decidimos abrir o Holy Burger”, complementa Prieto que além de ser sócio da hamburgueria divide a direção do Fôrno com outros empresários.

Iniciativas como essas demonstram a importância que a gastronomia pode ter na revitalização do centro, apostando na região como um lugar acolhedor. “A revitalização é um movimento anterior, entendendo que se a gente não ocupa os espaços, a gente não os transforma. Não é abandonando que vai haver transformação”, argumenta. Para Prieto, existe um estigma sobre o local. “É falso imaginar que o centro de São Paulo é mais inseguro que qualquer outro lugar. Na verdade, a sensação talvez seja maior por conta da exposição que tem a Cracolândia, e essa exposição potencializa essa sensação de medo do centro. Acho que a insegurança não é um aspecto único daqui. Ela está presente em toda a nossa cidade”, afirma Gabriel Prieto.

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O crítico gastronômico e editor-chefe da revista Veja, Arnaldo Lorençato, que também leciona no curso de Jornalismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, explica que, apesar do centro ser lembrado pelo aspecto da insegurança, há atrativos que continuam trazendo as pessoas para a região, como alguns empreendimentos de gastronomia do edifício Copan. “O Bar da Dona Onça, que é no edifício Copan, virou uma coisa impressionante. Ali tem vários outros lugares, o Copan em si é um fenômeno.”

Apesar da região contar com restaurantes que estão há anos construindo uma tradição e identidade, o centro também passa por uma gentrificação, não só ligada à gastronomia, mas a outros tipos de comércio. Iná Jost, pesquisadora que mora há dois anos no centro, conta que há muitos lugares que eram autênticos, mas acabaram se tornando monopólios homogeneizados.

Prieto também critica o aspecto da gentrificação apontando-a “como um processo de segregação sócio-espacial”. “Esse aspecto é algo que está enraizado no centro, porque durante um bom tempo a região foi considerada o lugar mais rico de São Paulo, ali que estava a aristocracia”, pontua. No entanto, ele destaca que o centro também é um espaço que oferece opções que incluem todo tipo de pessoa. “Do ponto de vista da transformação, você tem ali pontos e até barracas de comida muito simples, você tem ainda o churrasco grego, casas muito antigas que permanecem”, completa.

Para o empresário, empreender é um grande desafio na nossa cidade e o fechamento de alguns espaços no centro para dar lugar a outros não necessariamente é algo ligado à gentrificação. “Acho que é algo que está mais ligado à sucessão de quem vai tocar e acreditar no projeto”, explica.

Para André Silva, advogado que mora e sempre trabalhou no centro de São Paulo, a diversidade é o grande atrativo da região. “O legal do centro é que ele sempre tem variedade. Tem coisa nova e coisa muito velha também, isso é legal. Tipo o Cangote, que tem dois anos. Onde eu trabalho, tem uns restaurantes de 50, 60 anos, tipo o Almanara, que deve ter uns 80.”

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Com mais de 12 milhões de pessoas e um circuito gastronômico com 20 mil restaurantes, o centro passou por muitas mudanças ao longo dos anos e ainda há a tentativa de se adaptar às novas tendências e hábitos de quem o frequenta, mas o local preserva a característica histórica de ser plural e rico em cultura.

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