Crise climática afeta moradores de São Paulo e medidas públicas não atendem os extremos da cidade
Os efeitos da crise climática já alteram padrões de temperatura e afetam moradores de São Paulo. A redução das emissões de gases de efeito estufa, justiça climática e impactos sociais das mudanças climáticas, são temas da COP30, 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, prevista para acontecer em novembro em 2025 em Belém, no Brasil. Entretanto, segundo o Relatório de Clima e Desenvolvimento (CCDR), publicado em 2023 pelo Banco Mundial, o Brasil enfrenta riscos consideráveis das mudanças climáticas. Afirma que as populações pobres em áreas urbanas, sobretudo moradores da periferia, são grandes vulneráveis das ilhas de calor, onde o calor extremo é mais intenso e frequente.

Leonardo Pinheiro, 23, designer, acredita que altas temperaturas afetam no humor, no sono e na saúde das pessoas. Costuma usar as linhas azul e verde para se locomover, e relata que é péssimo no calor, com risco de alguém passar mal. “Para quem pega ônibus, fica esperando passar o ônibus com ar condicionado e que esteja funcionando, porque muitas vezes não está”, relata.
Apesar de passar por dificuldades de extrema lotação, alta temperatura e falta de circulação de ar no trajeto diário para chegar ao trabalho, no escritório tem acesso à ar condicionado e água gelada, mantendo-se hidratado. Em casa, depende dos ventiladores e das janelas abertas para ventilação. Leonardo explica a sua rotina no verão morando com outras três pessoas. Acrescenta: “deu para perceber um aumento tanto na luz quanto no consumo de água”. São três ventiladores ligados e a quantidade de banhos também aumenta.
“Não acho que são todas as zonas da cidade que estão aptas para isso, principalmente para moradores de rua, como mencionei, os extremos. Eles sofrem bastante com o frio”, comenta Leonardo. Ele entende que a alteração climática já está presente, mas que as políticas públicas não atendem à essa realidade.
Suas sugestões para reduzir esses impactos destacam que deveriam partir do próprio governo, não somente de incentivos civis, como pontos de hidratação e auxílio para pessoas em situação de vulnerabilidade: “existem alguns sistemas ao redor do mundo que a própria calçada solta jatos de água para esfriar o asfalto, então medidas que ajudassem a lidar melhor.”
O estudo publicado na Revista Brasileira de Meteorologia, em 2024, afirma que em lugares da capital há diferenças médias de temperatura que variam 4ºC, se comparado as áreas predominantemente rurais. Ele analisou por dez anos, de 2009 a 2019, dados das 30 estações meteorológicas do CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas) da Prefeitura de São Paulo.
Eles dividiram os bairros em três grupos: A (mais quente) são bairros como Butantã, Lapa, Vila Formosa e Jabaquara; Grupo C (variação térmica considerável), Santo Amaro, São Mateus e São Miguel Paulista; e áreas mais frescas, próximos de zonas rurais, como Capela do Socorro e Riacho Grande. Os distritos mais quentes são os que têm menor concentração de áreas verdes.
O Relatório de Clima e Desenvolvimento (CCDR) afirma que a ausência de uma estratégia e políticas públicas, falta de financiamento e falta de governança comprometem a efetividade de ações e favorece as atividades ilegais que ameaçam os objetivos para o desenvolvimento sustentável.
Além de não garantir saneamento de qualidade, diminuição do desemprego e aumento do emprego formal, as estratégias de combate à mudança climática precisam considerar fatores socioeconômicos e raciais, viabilizando adaptar nos diferentes distritos da capital. O relatório ainda afirma que, a partir de 2030, eventos relacionados ao clima podem levar de 800 mil a 3 milhões de brasileiros à pobreza extrema.

Ana Sanches Baptista, consultora técnica no Ministério da Saúde e ativista na Rede Antirracista Quilombação. Doutoranda no programa de Mudança Social e Participação Política na EACH-USP (Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo), acredita que existem dois grupos de pessoas que são afetadas pela crise climática: as vulnerabilizadas, que são crianças, idosos e gestantes; e as vulneráveis que, pela condição social, sentem as transformações do clima de forma mais evidente. Ela cita moradores da periferia, que não têm acesso à saneamento de qualidade, ou pessoas sem moradia, que sofrem com o frio extremo e enchentes sem abrigo. Essa parcela da população, majoritariamente preta, tem experiências agravadas pelo conjunto de: má alimentação, falta de higiene e políticas públicas que não os atendem.
Além disso, Ana fala que os recortes precisam ser analisados conforme gênero, raça e condição social. As necessidades de uma pessoa preta que ascendeu economicamente, não é a mesma daquela que mora na favela, ainda que eles passem por dificuldades que se juntam em determinados aspectos.
O Guia para Eleições Municipais, publicado pelo Greenpeace em 2024, afirma que trabalhadores são os grandes afetados pela crise climática e alterações de temperatura, incluindo aqueles que estão em condição de informalidade e passam o dia ao ar livre. Ou seja, são pedreiros, vendedores ambulantes e agricultores. Além disso, mostra que ondas de frio e de calor influenciam na saúde, causando efeitos como desnutrição, enxaqueca e problemas cardiovasculares. Inundações e enchentes também podem aumentar a chance de contrair doenças com o contato com água contaminada.
A pesquisadora Ana Baptista afirma que políticas públicas precisam ser reinventadas, sobretudo, quando se trata sobre a crise climática, visto que as necessidades mudaram e as políticas não atendem de forma efetiva a parcela mais afetada. Com sua experiência, ainda reforça que existem políticas públicas que são formuladas no âmbito federal e direcionam para os estados e os municípios aplicarem. Ela dá o exemplo que São Paulo, por exemplo, é mais rico, mas estados do Norte ou Nordeste têm desafios diferentes. Então, eles precisam desenhar medidas diferentes que atendam indivíduos de realidades diferentes.
Na vida de pessoas que moram na periferia, sofrem com a falta de hidratação, com a distribuição de água fraca, que chega aos centros da cidade, como São Paulo, mas não nos distritos extremos.

A costureira Romilda Araújo, 51, conta que no ateliê onde trabalha e passa cerca de nove horas, é bem quente. Opta roupas mais leves para amenizar a sensação e vencer o dia. “Tem dias que a gente quer uma piscina, um chuveiro, e não vê a hora de ir embora”, conta.
No seu tempo livre, Romilda afirma: “Gosto de ir no Parque Burle Marx. O parque tem trilhas e lá é bem fresquinho. Então é gostoso ir e sentir a natureza”. Já na própria casa, comenta que é mais fresco e confortável, podendo lidar com temperaturas quentes pelo ventilador.
Ela se responsabiliza de forma individual, atentando-se para não poluir as ruas, mas tambem comenta que nem todas as pessoas têm essa consciência. “Acho que tem um desequilíbrio ecológico. Creio que plantar árvores, limpar os lugares pra quando chover o solo ficar livre”, fortalecendo o pensamento da contribuição individual.
Sobre a COP30, a ativista Ana Baptista acredita que vai ser uma disputa para ver quem consegue obter recursos para implementar políticas públicas. Com os Estados Unidos saindo e sem participar da COP30, que era um dos grandes financiadores, os recursos financeiros diminuem, mas as necessidades são ainda maiores, principalmente para países subdesenvolvidos, como da África Sul ou o próprio Brasil. Por acontecer em Belém, em uma região amazônica, afirma: “É uma oportunidade de mostrar as coisas boas do Brasil e os nossos problemas”.
Ela acredita que o caminho para um bom enfrentamento e replanejamento das politicas publicas, atendendo diferentes camadas, é a participação da sociedade. Para isso, incentiva o acesso no site Brasil Participativo, em que a população civil pode votar, comentar e sugerir medidas para o Plano Clima. Ao final da consulta, os técnicos responsáveis vão avaliar para dar base as medidas na COP30, que tem alcance global. Ana Baptista encara como uma oportunidade para cada um desempenhar o seu papel de cidadão.
Site Brasil Participativo
Nesta seção, você pode contribuir para a primeira versão dos Planos Setoriais e Temáticos de Adaptação, um dos componentes do Plano Clima. Nos quadros abaixo, estão disponíveis as propostas iniciais para os respectivos textos e capítulos, aos quais você poderá adicionar suas sugestões e comentários em cada parágrafo. Ao final do período de consulta, os ministérios responsáveis por cada plano setorial ou temático analisarão as sugestões recebidas e publicarão as devolutivas. Participe!
https://brasilparticipativo.presidencia.gov.br/processes/planoclima/f/667
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