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A literatura que atravessa a Consolação

Visitantes da passagem literária. Foto por: Laura Moraes

Quem desce pela Estação Paulista em direção à Rua da Consolação encontra, no subsolo da avenida, um corredor repleto de livros e muita cultura preços populares. A Passagem Literária da Consolação, criada em 2009 e administrada pela Secretaria Municipal de Cultura, funciona como um sebo subterrâneo e oferece livros a partir de R$3, além de apostilas escolares, materiais para vestibular, revistas, quadrinhos e títulos usados e novos.  A dinâmica do local atrai leitores que buscam variedade e preço acessível. As prateleiras distribuídas pelas laterais da passagem estão sempre cheias e, em alguns trechos, os livros ficam empilhados no chão ou organizados em caixas. Segundo frequentadores, isso não representa desorganização, mas faz parte do processo de garimpo. “Aqui você acha coisa que não encontra mais nem na internet”, disse Gilmar Luís, 70 anos, entrevistado durante a visita.

Morador do Tatuapé, Gilmar costuma ir tanto à passagem quanto à livraria Martins Fontes, que fica próxima dali. No dia da entrevista, procurava revistas antigas da Marvel. “Estou tentando completar uma coleção para o meu sobrinho. Quando ele viu os primeiros números, ficou emocionado”, relatou. Ele também comentou a preferência pelo livro físico: “Eu leio quatro livros por mês e não troco o papel por tela. Acho mais simples pegar o livro, abrir e ler. Não preciso de aplicativo, senha nem bateria.” Além de frequentadores habituais, o espaço atrai visitantes de todas as idades que chegam pela primeira vez influenciados pelas redes sociais. Durante a reportagem, as amigas Maria Helena, 17, e Maria Coelho, 20, exploravam as prateleiras em busca de títulos diversos. Maria Helena contou que descobriu o lugar no TikTok. “É um sebo, mas com uma estética menos gourmet aqui na Paulista. Achei a proposta legal. E falaram que o Tim Bernardes gravou aqui, então fiquei curiosa.”

Maria Coelho riu ao explicar que acompanhou a amiga por impulso: “Ela me trouxe. Eu só vim junto mesmo.” Mesmo assim, aprovou a visita. “A gente achou uns preços bem legais de livro. Valeu a pena.” Entre os títulos que chamaram atenção estavam Ponciá Vicêncio, de Conceição Evaristo, dois livros de Clarice Lispector (Um Sopro de Vida e Literatura Comentada), O Código Da Vinci e Lolita. As duas afirmaram que pretendem voltar. “Infelizmente sim, infelizmente porque minha saúde financeira não vai gostar”, brincou Maria Helena.  Sobre recomendar o lugar, foram categóricas: “É um ótimo lugar pra quem gosta de ler. Tem bons títulos, os preços são acessíveis e a localização ajuda muito”, disse Maria Coelho.

Passagem literária da Consolação. Foto por: Laura Moraes

O espaço também recebe exposições de fotografia e outras intervenções artísticas ao longo das paredes. As imagens registram cenas do cotidiano paulistano, enquanto vitrines e murais complementam a identidade visual da passagem. Uma lousa informa que o local aceita doações de livros, o que mantém o acervo em constante renovação e reforça a dinâmica de circulação cultural. Para Gilmar, a leitura segue sendo um recurso acessível, desde que haja interesse: “Tem muito conteúdo ruim por aí, principalmente online, mas também tem material bom. Depende do que a pessoa procura. Cultura existe, só não pode se acomodar.” Com a movimentação diária de estudantes, turistas e moradores de diferentes regiões, a Passagem Literária da Consolação se mantém como um ponto alternativo e acessível para compra, troca e doação de livros, um espaço que resiste no subsolo da Paulista e onde a cultura circula, literalmente, de mão em mão.

 

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