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Religião e política: quando a fé vira plataforma eleitoral?

Senador propôs liberar propagandas eleitorais, gerando preocupações sobre a influencia de líderes religiosos no voto dos fiéis

O senador Marcelo Castro (MDB-PI) realizou uma série de atualizações no Código Eleitoral que foram entregues a Comissão de Constituição e Justiça no início de abril de 2025. Entre elas, a liberação das propagandas eleitorais dentro de espaços considerados pela lei atual, por “bem comum”, como igrejas, templos, sinagogas, terreiros e demais espaços religiosos.

A atualização trouxe preocupação a muitos políticos que alegam temor pelo eleitorado religioso, que terá que lidar com uma onda de influências e até manipulações na busca dos líderes religiosos para elegerem o seu representante.

O ex-vereador de Taboão da Serra, Tales Pereira Franco, 44, vivenciou essa pressão: “já me senti pressionado antes de me candidatar. Inclusive, foi um dos motivos que entrei na política, para ir contra esse sistema”. O político se elegeu sem apoio da igreja e, mesmo achando importante ter um representante de fé, foi contra o vínculo de pressão estabelecido pela igreja aos fiéis.

Para o político, a tomada de decisão envolve muitos fatores como cultura, ambiente em que se foi criado, vivências e crenças. Tales reforça a importância da fé em suas decisões como um catalisador de clareza, “a fé é importante para a clareza de decisões, mas não para envolvimento em políticas públicas ou até mesmo querer propagar uma religião através da política”, afirma. O princípio da laicidade é essencial para que a gama de religiões não sejam feridas.

O advogado Cristopher Kleber Dantas Oliveira, 35, reforça que as entidades religiosas, por lei, não podem apoiar um candidato político sob pena de pagar multas ou ter o político cassado. O líder religioso pode ter um partido de escolha e apoiá-lo publicamente desde que não ligado à entidade, já que o Estado é laico, mas dá direito a liberdade de expressão, desde que uma não traga imposição a outra.

Ele explica que infelizmente a lei deixa brechas que são usadas pelos juízes para decidir a partir de uma crença subjetiva, que pode ser a favor ou contra aquela religião.

Para Cristopher, um dos papéis da igreja é fazer com que o fiel possa desenvolver o seu próprio pensamento crítico e escolher livremente em qual candidato irá votar. Ele cita exemplos que foram vistos, inclusive na emblemática eleição de 2018 disputada entre Lula e Bolsonaro, quando inúmeros templos religiosos veicularam mensagens coercitivas sobre ambos, em um antagonismo de comunismo ou conservadorismo, com a família tradicional sendo levada como padrão.

Particularmente, o advogado conclui que: “sou contra líder religioso ser candidato, eu não gosto dessa mistura e como cristão, não vejo esse exemplo na Bíblia’”, ele completa “o líder religioso, como um pai, professor ou chefe, tem o poder de convencimento sobre seus comandados e isso não deve virar uma imposição política”, afirma.

O ex-vereador Tales concorda e completa: “A política está desgastada tanto pelo partidarismo político quanto pela religiosidade política. Tem bancada evangélica, bancada ruralista e o que eles fazem? Dividem o próprio povo evangélico”. E continua “deveria ter um órgão fiscalizador para que os projetos não sejam apenas religiosos, mas que operem para o povo”.

Tales acredita que um dos motivos para que a laicidade seja assegurada, é de que não há um espaço político maduro para que haja um diálogo assertivo profundo entre diferentes religiões, que promova alguma diferença. Se tratando de religiões com bases cristãs e religiões de matrizes africanas ou até mesmo indianas, a relação é ainda mais distante.

Ele afirma que o eleitorado carece de maturidade também, já que caso o político tente o contato com outro representante de uma religião distinta da dele, ele perderia a credibilidade no seu próprio meio. Ou seja, seria penalizado por tentar promover esse diálogo.

“O viés religioso acaba segregando a própria igreja, criando facções”, afirma Tales. Tales reforça que mesmo sendo cristão, sempre aprovou projetos plurais, como a nomeação de ruas, praças ou avenidas com nomes de santos e homenagens, desde que não tragam imposições a sua crença.

O ex-vereador afirma que em muitos momentos teve embates entre a religião e propostas políticas, mas que procurou optar pela imparcialidade lembrando que legislava a todos em suas diferentes religiões. Embora tivesse confrontos frequentes com ativistas da causa LGBT por sentir que sua liberdade estivesse sendo sobreposta pela causa, também quando foi contra a passeata por alegar atentado ao pudor.

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